Mostrando postagens com marcador Reportagem Especial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reportagem Especial. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Glamour noturno

O simples anúncio de que se trata da primeira corrida noturna da história da Fórmula 1 já seria suficiente para fazer desta prova um evento especialíssimo da temporada. No entanto, Cingapura conseguiu transformar esse fato inédito numa espécie de retoque final — a cereja que faltava ao bolo — aos vários requintes empregados em seu Grande Prêmio.

A Cidade-Estado asiática selecionou os melhores pontos de seu pequeno território para deixar o mundo da velocidade de queixo caído com as maravilhas visuais e com um circuito de rua incrivelmente fantástico, ao qual faltam adjetivos para descrever.

O traçado de 5.067 km passará por vários cartões postais desta república parlamentarista do sudeste asiático, situada entre a península da Malásia e da Indonésia. Como a pista de Valência, terá uma ponte para os carros passarem, a Anderson Bridge, porém ainda mais encantadora que a da Espanha.

As construções observadas nos demais trechos do circuito, como a Raffles Boulevard e a St. Andrews Road, revelam a riqueza da “Cidade do Leão”, conhecida também como um dos locais mais limpos do mundo.

Mas de todos os setores, o que mais impressiona é o da chamada Marina Bay, parte final da pista, onde os bólidos passarão por baixo das arquibancadas — imagine a sensação de quem estiver neste ponto. Por essas razões é que se pode classificar a noite como um brilho especial para a etapa.

Assim como Interlagos, o circuito de Cingapura é percorrido no sentido anti-horário. Totaliza 23 curvas, três delas rotuladas como reais pontos de ultrapassagem segundo os organizadores: as curvas 1, 7 e 14.

Na volta virtual exibida no site oficial do GP, fica a impressão de que a pista oferece de fato condições de ultrapassagem, ao contrário do que se viu na corrida de rua de Valência, uma tremenda decepção neste quesito.

Entretanto, é bom evitar expectativas antecipadas e tentar não misturar a questão da beleza e charme da prova com a vontade de ver uma etapa recheada de emoções e pegas acirrados, como os vistos na Bélgica e na Itália. Muita gente agiu assim na Espanha e caiu do cavalo com a verdadeira procissão que foi o Grande Prêmio valenciano.

De qualquer forma, Cingapura será um evento inédito para a F-1 e decisivo para o campeonato, pois ao fim da noite do dia 28 de setembro a categoria poderá ter um novo líder da classificação ou quem saber ver o atual primeiro colocado da tabela com um pouco mais de folga na liderança.

Fatores como a temperatura ambiente e possibilidade de chuva serão outros ingredientes para apimentar a disputa agendada para a próxima semana. Tanto um clima mais ameno como a pista molhada são favoráveis à McLaren, como se viu em outras ocasiões. A Ferrari, contudo, demonstrou bastante força nas duas corridas de rua já realizadas em 2008.

Com um time prateado em vantagem no quesito clima e uma escuderia italiana forte nas pistas urbanas, é de esperar um interessante equilíbrio em Cingapura, onde o fator piloto promete ser fundamental.

Para uma volta lançada, sabemos que Felipe Massa é o cara. Já em corrida, Lewis Hamilton demonstra ter um algo a mais. Em qual dos dois apostar? Melhor deixar o palpite para depois dos treinos.

Por enquanto, a única garantia é a de que haverá um ótimo programa noturno para a próxima semana. Tomara que regado de ultrapassagens, emoção ou até mesmo zebras, como em Monza.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Um Fittipaldi que poucos conhecem

Umas boas vassouradas aplicadas pela mãe acabaram com uma possível carreira no motociclismo, mas serviram para colocar o garoto na trajetória do automobilismo, já que para a dona Juze Fittipaldi os carros não eram tão perigosos como os veículos de duas rodas.

Nada de Fórmula 1, Fórmula Indy, A1GP ou GT3. Todos que estiveram na noite de quarta-feira na loja Harley-Davidson do Itaim (SP) queriam saber apenas das aventuras de Emerson no universo das motocas; um capítulo do seu livro de vida que pouca gente conhece.

“Um acidente de moto que meu pai sofreu em Interlagos criou um trauma na família. Tanto é que a minha mãe falou: ‘Até 50cc você pode correr, não pode passar disso’. Foi então que aos 14 anos eu comecei a pilotar uma motocicleta de 50 cilindradas”, contou o bicampeão de F-1.

“Para minha primeira corrida em Interlagos, o Adu Celso (primeiro brasileiro a vencer uma corrida no Mundial de Motovelocidade) me emprestou a motocicleta dele, que era uma 4 tempos. Eu ganhei prova e fiquei super entusiasmado”.

“O Adu morava pertinho daqui, na Cidade Jardim, e no fundo da casa dele tinha uma oficina. Eu ia para lá com a minha motinha, a preparava na sexta-feira e corria em Interlagos no fim de semana”, prosseguiu empolgado o veterano.

“Minha história com motocicletas durou quase três anos. Na última corrida que fiz, competi com uma moto construída pelo Silvano Pozzi, a Moto 5, a primeira motocicleta de corrida feita no Brasil. Era uma máquina muito rápida e bem feita. A fábrica dele era perto da Alameda Barão de Limeira, no centro de São Paulo. E como fabricava kart, pegou um motor de 125cc, adaptou os virabrequins, mudou o pistão e o fez girar 175cc”.

“Eu lembro que eu era pequenininho, menor do que sou hoje, e tinha que ficar na ponta dos pés quando subia na moto. Por isso, precisava que o mecânico me empurrasse para conseguir ligar a motocicleta de corrida”.

“Fiz as 100 Milhas de Interlagos com a Moto 5, em 1963. Eu estava andando bem, mas não pude largar na frente do grid porque a minha mãe desconfiou que eu fosse correr e foi lá no circuito. Naquela época, o público ficava bem perto da largada, então eu saí detrás dos boxes”, revelou Emerson.

“Tive que abandonar a prova por conta da quebra da corrente, na entrada da curva 3 do antigo Interlagos. Deixei a motocicleta, voltei a pé para os boxes e na seqüência fui embora. Quando cheguei em casa, a minha mãe perguntou: ‘O que você fez hoje?’ ‘Fui velejar’, respondi. Ela então retrucou: ‘Ah é? Aonde você foi velejar?’ ‘Fui velejar com um amigo meu’. Ela simplesmente trancou a porta, pegou a vassoura e me deu uma surra. Terminava ali a minha carreira em duas rodas. Nunca mais corri”, relembrou entre muitos risos.

“Ela tomou a minha Mondial e eu fiquei sem moto. Uns dois anos depois, quando já estava correndo de automóvel e ganhava o meu próprio dinheiro, comprei uma Ducati 125cc, mas só para o lazer”.

“Sou apaixonado por motociclismo até hoje. Acompanho todas as provas da MotoGP e acho incrível o que os pilotos fazem atualmente na categoria. Na minha época não se andava como agora”.

“Até o ano passado eu tinha uma Harley-Davidson Heritage Nostálgica, de cor prata e branca, lá nos EUA. Aqui no Brasil eu tenho quadriciclos. Dois Bombardier de competição e dois Honda”.

“Tenho um amor muito grande pelo motociclismo e ótimas lembranças. Uma delas está ligada ao John Surtees, o único sujeito a ser campeão de F-1 e Motovelocidade. Você sabe aonde o assisti correr quando eu era moleque? No Ibirapuera, na inauguração do parque em agosto de 1954. O John ganhou a corrida de moto, com uma Norton Manx de 500cc”.

“Lembro também que fui o primeiro piloto a correr de moto com etanol no Brasil. Eu era mecânico de kart e na época preparava os karts do meu irmão e do José Carlos Pace, movidos a álcool antigamente. Daí eu resolvi colocar na moto e melhorou o desempenho”, contou Fittipaldi.

Além das curiosidades de Surtees, Emerson resgatou outros dois nomes famosos no cenário do motociclismo, ambos com passagens nos monopostos. “Eu era muito amigo do Giacomo Agostini. E ele correu de Fórmula 2 e também na Fórmula 1 B. Como tinha muito carro de F-1 naquela época, os dirigentes montaram um campeonato B e o Giacomo entrou. E como andava bem”.

"Uma noite de boas histórias do campeão".

“Outro amigo que guiava muito era o Mike Hailwood. Ele andava muito rápido em automóvel. Em motocicleta, então, era excepcional”, ressaltou. De fato, o britânico conduzia uma motocicleta com extrema maestria. Não por menos era chamado de “Mike The Bike”. “Um grande piloto!”, completou Fittipaldi.

Dos astros atuais do motociclismo, o brasileiro não titubeou ao destacar Valentino Rossi, que em 2006 fez alguns testes com a Ferrari na Fórmula 1. “O pessoal da Ferrari fala que o Rossi andou muito rápido. O cara que anda bem de moto tem muita noção para correr de carro”.

Sobre o universo das quatro rodas, Emerson falou pouco. Sem dúvida, teria tantas outras histórias curiosas para dividir, mas naquele dia o bicampeão de F-1 e campeão da F-Indy estava animado e empolgado com as recordações motociclísticas.

Entretanto, a paixão pelos carros deixou escapar algumas informações atuais. Uma delas, por exemplo, relacionada à A1GP, competição chamada de Copa do Mundo de Automobilismo, disputada entre o fim do ano e o início do próximo.

“Estou trazendo uma etapa desta categoria para o Brasil”, revelou Emerson, deixando escapulir também que se de fato a competição vir para o país, correrá em Interlagos. “Nosso piloto será um garoto muito veloz de Brasília, o Felipe Guimarães”, acrescentou.

Por fim, uma informação sobre a GT3, o lazer atual do campeão. “Estou me divertindo muito nesta categoria. Na próxima etapa, no Rio de Janeiro, a emoção deve ser maior porque o (Nelson) Piquet também vai correr”, declarou.

Dois títulos mundiais na categoria máxima do automobilismo (1972 e 1974), dois vice-campeonatos, 14 vitórias, seis pole-positions, 35 pódios, 281 pontos, 11 temporadas e a aventura de competir por uma equipe própria. Uma história de sucesso e de abertura de portas para o Brasil no cenário internacional do esporte a motor sobre quatro rodas que se concretizou com a ajuda da mãe Juze. E sua vassoura.

O motociclismo pode ter perdido um grande nome graças àquelas vassouradas. Mas o que seria do automobilismo sem o grande Emerson Fittipaldi?